sexta-feira, 1 de outubro de 2010

dor que dói

Ela chega e se instala, sem nunca ser convidada. 
Ela se amarra no seu coração e te puxa pro fundo, como uma âncora.
Deixa ele apertado. Sufocado.
Você sente ele rasgando, se desfazendo. Até desmanchar. Até chegar aos olhos, esparramada. Até dominar todo o seu corpo e deixá-lo sem compasso.
Você só vê preto e branco.
Você sorri, participa, se envolve. Tudo isso enquanto sangra. Enquanto arde em brasa. Agonizando.
Agora ela é dona dos seus sorrisos, dos seus olhares, das suas vontades.
Você luta. Você tenta salvar seu coração despedaçado. Joga bons filmes, boas companhias, música alta, praia e um pôr-do-sol lá pra dentro, como se fosse um liquidificador. Bate tudo. E toma. Num gole só.
Espera um pouquinho pra ver se passa.
Não passa.
Ela continua lá. Cravada em você. Insistindo em te torturar.
E você luta mais. Você sai. Você tenta rir. Tenta esquecer. Tenta expulsar aquela maldita sensação. Aquela dor desgraçada.
Mas não adianta!
Você fica exausto. Frustrado. Em desespero.
Maluco.
Dói tanto que você nem lembra mais quem era antes de se sentir assim.
E sabe o quê? Não importa o que você faça. Ela decide quando vem e quando vai.
Não está nem aí pra você. Idiota.
E então você se pergunta se desistir não cansa menos.
Talvez.
Então deixa que venha quando vier. Acolha-a com gentileza quando bater à sua porta. Deixe que se espalhe. Deixe que ela permita que você se permita sentir um pouco de dor. Para que você se sinta vivo. Para que aquilo que dói ali dentro se dissolva e possa então ir embora.
Aceite a dor. Curta tudo o que vier com ela. E depois deixe ir.
Porque ninguém pode ser feliz o tempo todo. Ninguém tem que ser feliz o tempo todo.
Recolha-se. Não fique aí fazendo o que os outros gostariam que você fizesse pra se livrar da melancolia.
Dá um tempo.
Quer chorar? Então chora.
Quer gritar? Grita.
Soquear uma parede? Vai lá.
Só não força um sorriso. Porque eles virão, sinceros e puros, a seguir.

Um comentário:

  1. Se ela bater à porta.. deixe-a entrar... Visita é sempre bem vinda, independete do que causasr... Somente dessa forma que percebemos a sutil diferença de viver com ela ou sem ela...

    De nada basta sermos felizes, se não temos a lembrança dos momentos em que abatidos deixamos a porta escancarada p/esta inoportuna visita...

    Entretanto, de toda marca deixada e da bagunça inesperada em nossa alma, fica a certeza...que naquela porta, só passam novas visitas.. e esta tão conhecida e sofrida por esta não passa mais.

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se meu coração pudesse falar tenho certeza de que ficaria calado. e suas palavras todas sairiam rabiscadas em folhas de papel.

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