sexta-feira, 12 de novembro de 2010

da boca pra fora

Sempre invejei os faladores.
Sempre tive admiração por aquelas pessoas que nasceram com a habilidade especial de conseguir escolher as palavras certas e as pronunciarem corretamente, uma atrás da outra, formando frases compreensíveis, pronunciadas rapidamente, expressando exatamente o que se pensa e sente.
Ufa!
Eu nunca fui boa em falar. E desde que eu me lembro, prefiro as palavras escritas. 
As coisas mais importantes que eu poderia ter dito até hoje saíram em folha de papel.
Não sei. Meu coração não se dá muito bem com o meu mecanismo de fala na hora de expressar meus sentimentos.
É complicado pra mim. Eu engasgo. Eu fico olhando pros lados. Eu esqueço o que queria dizer. E acabo não dizendo nada com nada.
Não venha falar de coisas complicadas comigo se estiver com pressa. Vou demorar pra responder. Ficar parada olhando pro horizonte, pensando, pensando. Procurando uma maldita frase que possa se encaixar com o momento. E talvez nem responda algo decente no fim.
Sempre fui meio frustrada com isso. Com essa minha falta de capacidade de formar frases orais em horas delicadas.
Até certa vez que li, em algum lugar mundo afora, que não basta ouvir o que as pessoas dizem, temos de ouvir o que elas talvez nunca venham a dizer.
Poxa. É verdade.
Existem coisas que talvez nunca digamos. Coisas que não cabem em palavras.
São mais de 356 mil delas, disponibilizadas pela Língua Portuguesa, insuficientes, para tudo o que meu coração quer dizer.
Palavras não bastam.
Deve ser por isso que inventaram a música, que inventaram a arte, que inventaram a lágrima.
O coração é um universo à parte que não pode falar por si só. Não há quem diga exatamente o que ele quer. 
As mensagens muitas vezes vêm confusas. Porque o coração é confuso.
Dizer pode ser dizer errado. Falar muito pode ser falar nada. As palavras não precisam nem significar exatamente aquilo que se entende. Você pode levar muito a sério o que alguém fala só da boca pra fora.
Palavras são boas, mas não dizem tudo.
As ações falam muito, os sorrisos, os abraços, os olhares. E o silêncio, às vezes, fala mais. 

É preciso ouvi-los.
Não tenho esperança alguma de que eu vá me transformar em uma revelação da oratória.
Mas quanto a ouvir, bem, ando querendo ouvir mais.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

giro certo

Ela caiu de paraquedas no meu mundo com o nariz em pé.  
E meu mundo era um mundinho, sabe? Proporcional aos meus recém feitos catorze anos. Sem muita aventura. Quietinho. Vida social quase inexistente. Uma chatice.
E ela não.
Ela tinha vindo desses mundos de gente grande, independente, impaciente pra pequenices, pra gente boba, tipo eu.
Ela ria alto. Abraçava forte. Andava sozinha, ela era boa em todos os esportes, ela conversava com todo mundo, e todo mundo que eu gostava, gostava dela.
A minha inveja, misturada com um ódio quase inocente, crescia a cada sorriso que ela dava. Odiava os cabelos pretos, odiava os olhos puxados, odiava o fato dela chamar atenção por onde passasse, odiava meus colegas dizendo o quanto ela era bonita!
E eu sabia que ela não gostava de mim. E eu, definitivamente, não gostava dela.
Argh! Aquela guria! Por que não voltava pro lugar de onde tinha vindo?
Os anos do colégio passaram, e eu a detestei todos os dias enquanto estive lá, mesmo que de longe. Bem de longe.
Com o passar dos anos o ódio sumira, mas a antipatia ainda estava lá.
- Aquela guria? Não. Não sou amiga dela. É, é, também não gosto dela.
E o destino, insatisfeito, insistiu.
Acabamos, eu e ela, participando de um projeto de intercâmbio que nos obrigou a conviver por seis meses. Dividimos o mesmo quarto, o mesmo banheiro, os mesmos amigos, os mesmos problemas.
E quando me dei por conta, já estava com o nome dela escrito no meu coração. Se tornou, sem querer, uma das amizades mais importantes, e sinceras, e essenciais, e valiosas da minha vida toda.
É o tipo de pessoa que fica, não que passa. Que eu amo e cuido, respeito e admiro. De todo coração.
Quem diria.
Hoje a gente dá risada do que aconteceu lá atrás, bebendo cerveja e falando da vida. E sabe que o coração engana, confunde, é um completo idiota.
Amor vira indiferença.
Ódio vira amor.
Implicância vira admiração.
O mundo gira muito. A gente muda muito.
Que bom.

Quem sou eu

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se meu coração pudesse falar tenho certeza de que ficaria calado. e suas palavras todas sairiam rabiscadas em folhas de papel.

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