cachorra, na verdade. A Mel. Uma rotweiller ciumenta que só veio depois de dezoito anos de muito choro, depois de muito implorar, depois de nos mudarmos pra uma casa com pátio.
Sempre entendi o porquê de não termos tido cachorro até então: morávamos em um apartamento pequeninho, sem espaço pra um animalzinho crescer feliz. Mas confesso que doía meu coraçãozinho de criança ao ver os meus vizinhos, também moradores de apartamento, com seus poodles, bem pequeninhos, parecendo novelo de lã.
- Mas pai, eu pro-me-to que saio pra passear com ele todo dia!
Não.
- Mas pai, eu fico sem mesada por um ano!
Não.
- Mas pai, todo mundo tem!
Os “nãos” que eu ouvi foram exatamente proporcionais ao número de tentativas. Até o dia em que nos mudamos pra tal casa com pátio. Aí tudo bem.
A Mel era o filhote mais lindo do mundo. parecia um ursinho. Fofinha. Macia. Perfeita. foi amor à primeira vista.
e aí ela cresceu. Está conosco há quatro anos, idade exata dela. E devido a todas as suas bagunças e ao número incontável de coisas que já destruiu, decidimos que não seria viável ter outro cachorro. E ponto final.
Mas sabe como é, o destino nem sempre concorda com nossos planos.
E certamente foi por causa dele que há umas três semanas, um cachorrinho amanheceu em nossa calçada. Pequeninho, branco com umas manchinhas, orelhas e olhos pretos, olhinhos castanhos. bem magrinho, porém bonitinho.
Pensamos que fosse um cachorro qualquer, desses que aparecem de seis em seis meses, interessado no período fértil da Mel.
Sempre tomamos muito cuidado com esse tipo de cachorro, afinal ninguém lá em casa se interessa em ver a Mel grávida. Primeiro porque ela ficaria muito mais temperamental do que já é. Segundo porque machucaria o coração de todo mundo ter que doar os filhotes.
Xô, cachorrinho. Vaza.
A parte estranha era a ausência de sinais do tal período fértil. mas já ouvi dizer que coisas deste tipo os cachorros podem sentir até alguns dias antes de os sinais físicos aparecerem.
Então ta ok.
Insistente, então, o cachorro ficou em roda da casa por mais dois dias seguidos.
Chato, no terceiro dia já estava despertando o nosso ódio. Latia pras pessoas que passavam na rua, tentou morder o carteiro mais de uma vez, tentava a todo custo passar pelas grades, sem contar os latidinhos chatinhos na minha janela durante 3 noites seguidas.
Argh!
Já pensando em ligar para algum órgão que pudesse cuidar do bicho, descobrimos, despretensiosamente, que não estávamos lidando com um macho. Era, na verdade, uma cadelinha.
Ou seja, não havia nenhuma questão biológica que explicasse a sua presença.
Estranha, ela não saía da frente do portão e negava os chamados dos demais vizinhos que estavam tentando ajudá-la. Dava a banda dela pelas quadras vizinhas, mas nunca se afastava demais. Desconfiada, também não aceitava a comida dos outros.
Todos os dias ela me acompanhava umas quatro quadras até o trabalho, só voltava pra casa quando percebia que estava indo longe demais.
Já reconhecia nossos carros e a nossa voz. Ficava faceira esperando alguém ir brincar com ela na frente do portão. E eu ia.
Poxa. Ela já tinha me ganhado.
Por que diabos ali? Por que não na casa do lado, que também oferecia água e comida?
O que explica gostar de nós e não dos outros?
Vai saber...
quem sabe o mesmo motivo que nos fez gostar dela e não de outro cachorro.
E o mais legal foi perceber que eu não tava sozinha nessa de me apaixonar pelo bichinho. A cachorrinha perdida conquistou todo mundo lá em casa.
Assim, sem querer, chegando de cantinho, sem nenhum consentimento. e tomou conta.
A decisão de adotar não poderia ter sido mais certa e espontânea.
Um amor, gente. Um amor.
A Bolinha, ou Bola, quando é pra falar sério - nome dado pela Lisete, que cuida aqui de casa – já nos adotou também. anda em fase de adaptação com a mel, apenas. mas tá tudo dando certo. =)
logo, logo elas ainda vão render mais história...
